Quase uma semana depois da chegada na Inglaterra, o Harry ainda está com dificuldades de se aclimatar.
Pelo que senti dos seus relatos, parece que esse é o aspecto mais preocupante. A cada treino, eles aumentam o tempo de permanencia na água e mesmo assim está muito difícil superar a baixa temperatura. Vejam as palavras do Harry: “Sempre soube que não seria fácil e que a água fria somada aos 36 km seria o principal problema. Apesar da boa estratégia de treinamentos, a média da temperatura da água tem sido de 13,4 a 13,8 graus e, entrar no mar e se acostumar com o frio está sendo muito mais difícil do que eu imaginava.”
O que o Igor está priorizando no momento é que os nadadores fiquem na água e não se preocupem tanto com a técnica.
Uma das preocupações do Harry é a sequência de horas sem sair da água. Ele me contou sobre a rotina de treinos: “Levantamos cedo e tomamos café por volta das 8 da manhã. Ainda no hotel, o aquecimento começa. Alongamentos e movimentos de girar os braços são fundamentais para preparar músculos e articulações. Entre 10:00 e 10:30hs, vamos para a praia. É muito difícil chegar no mar! Além do caminho cheio de pedras, o vento é cortante. Deixamos nossas coisas atrás de uma grande pedra e colocamos outra menor, por cima de tudo, para que nada saia voando! Depois, tiramos a roupa e passamos a vaselina no corpo (debaixo dos braços, braços, ombros, rosto e coxas). As sandálias, Crocks ou seja o calçado que for, só dá para tirar quando chegamos na beira do mar. Entrando na água, giramos os braços ainda mais, para aquecer as articulações.
Então, olhamos um para o outro e também para as ondas, tentando achar o melhor momento para entrar.
Uma vez na água, só penso numa palavra: choque! Com certeza eu nunca havia experimentado nada parecido. Só depois de uns 3 minutos é que esboço uma reação.
Eu e o Max começamos nadar juntos, mas por ele nadar mais forte e mais rápido, acaba sempre se distanciando de mim. Afinal de contas, 16 anos nos separam!
Acabo usando os prédios ou montanhas ao redor como referência, pois com tantas marolas ficar perdido é muito fácil. Num dos treinos tinha até sol! E que sensação boa essa de ver o sol!
Uma hora depois do treino longo, de 3 horas, volto para o ponto de partida para tomar o suplemento. E para voltar para água depois? Choquinhos pelo corpo todo! E dores. A primeira coisa que penso é se os outros também sentem tudo isso.”
Conforme vai relatando, vou ficando cada vez mais apreensiva. Penso no sentido de tudo isso e se as coisas estão sob controle.
Ele me conta que em um momento, percebeu que os dedos da mão não fechavam e que teve medo de estar congelando.
Mas novamente esperou passar aqueles primeiros momentos e o corpo se adaptou mais uma vez.
Senti que nesses momentos críticos o que mais ele pensa é no todo. Ter se preparado por 12 meses nāo é pouca coisa. Outros nadadores nas mesmas condições devem sentir e pensar o mesmo e embora seja difícil, nāo dá para simplesmente desistir sem continuar tentando.
Duas horas depois desse treino, um novo equilibrio se estabelece. Os dedos da māo não voltaram ao normal, mas ganharam um pouco mais de mobilidade, as dores no corpo estavam sob controle e ele conseguiu! 3 horas e um minuto depois ele saiu do mar. A garrafa de água quente foi um prêmio especial.
Durante os 40 minutos em que ficou no chuveiro quente, tudo em que ele mais pensava era: eu consegui!
Pode parecer exagero, mas acho que o frio tomou conta do pensamento de tal forma, que possivelmente ele pode entrar em pânico. Depois vejo que o treinamento psicológico está fazendo efeito. Apesar do desespero, ele ficou até o final!
A cada dia os desafios aumentam. E o Harry já compreendeu que o esforço é bem maior do que todos esses treinamentos e que os limites estāo sendo testados a todo momento.
Caro Harry, tenho certeza que você saberá entender até onde poderá chegar e os seus amigos estarāo com você incondicionalmente.






